sexta-feira, junho 03, 2022

 Apresento 3 fragmentos inéditos da obra em construção, "Bandoleiros de Taubaté". Boa leitura. 




FRAGMENTO I - JOANA, mulher negra, por volta dos 30 anos, numa Fazenda colonial apresentando os aposentos o público como sendo turistas. Ela inicia com muita preocupação em agradar e está vestida bem formal, mas conforme a cena avança, ela vai revelando trajes e comportamentos mais libertários e militantes. Ela tem um papel de roteiro nas mãos para guiar.

JOANA – Olá querides visitantes. Que bom recebe-los na Fazenda Pedra Negra. Vocês adquiriram um ótimo pacote colonial. Vão conhecer as delícias de uma vida senhorial e respirar o ar dos tempos dourados para a elite desse país. Foi aqui que o capital nacional começou a dar seus primeiros passos... (à parte) Quem escreveu esse discurso? Meu Deus!... Vamos adentrar a Casa Grande, nessa ampla varanda podemos contemplar a propriedade, os cafezais se estendendo como tapetes para o infinito. O terreiro exalando o aroma inebriante da secagem do café. Uma bela capelinha aconchegante a demonstrar a piedade dos senhores e a Senzala...(à parte) Não! Eu não vou falar isso...tudo tem um limite! A Senzala é logo ali, depois teremos a oportunidade de conhecê-la por dentro, para quem se sentir à vontade, lógico... sigamos! A Casa Grande era a sede administrativa e abriga a família do Senhor, seus familiares, agregados e hóspedes. A disposição dos ambientes é uma sequência de salas, quartos ou alcovas, ligados por um corredor. A técnica construtiva é a melhor disponível, top importado, alvenaria de pedra na fundação e paredes de taipa de pilão. Olhem para cima e vejam os belos caibros de madeira sustentando telhas de barro cozido. Isso dá um refresco térmico invejável... Chega! (amassa o papel) Vamos continuar de maneira mais pessoal, vocês se importam? Ótimo! Essa era a sala da família do Barão da Pedra Negra, famoso senhor de escravos de Taubaté, cafeicultor respeitado. Ele se sentava nessa velha cadeira de embaúba e a Baronesa, sua senhora, amante de joias e porcelanato português. Ela tinha as mãos mais macias que já senti, também nunca tocou numa ferramenta de trabalho... sentava-se ali, numa cadeira de jacarandá toda. No meio do salão se espalhavam o filho único e a criadagem. O barãozinho, como era chamado, era um menino malicioso por natureza, levantava a saia das criadas e mordia suas bundas. Andava com um chicotinho a imitar o capataz e dava nas outras crianças querendo cavalgar no lombo de todas. O barãozinho era a alma dessa casa, a alegria do pai e da mãe que nunca encostaram a mão no menino, nem pra bem nem pra mal, sorriam entre uma baforada e outra, entre um carteado e outro. Reparem nos móveis, a riqueza de detalhes, belos entalhes no melhor estilo rococó tardio. E essa mesa? Olha que beleza, madeira de lei... guarda nas ranhuras a babinha do barãozinho enquanto as criadas davam-lhe na boquinha quando ainda nem era um taradinho... (pensando alto) Quando foi que ele se tornou aquilo?... Quando os homens se tornam tarados?... Quem ensina a eles? Deixa pra lá! Essa escrivaninha de peroba foi do pai do Barão, homem de letras, escreveu a crônica dos primeiros habitantes de Taubaté e como os indígenas extraiam as primeiras levas de pau brasil e transpunham as muralhas da serra do mar nos idos de 1500. O Barão é descendente direto dos primeiros Bandeirantes, verdadeiros fundadores desta cidade. (faz ânsia de vômito) Desculpe, foi alguma coisa que eu comi... (à parte) “fundadores desta cidade”? Quanta merda introjetam na gente desde pequeno? (saca uma faca) Estão vendo essa lâmina? Aço polido na pedra negra dessa fazenda. Esse cabo é feito de babaçu nativo aqui do quintal. Venham comigo! Qual o problema? Passaremos aos aposentos dos senhores. O quarto do Barão tinha uma salinha secreta onde ele escondia as escravas que ele queria consumir à noite. Ainda estão com receio de mim? No quarto do barão, minha mãe passou muitos dias trancadas com outras mulheres. Ele esperava elas menstruarem e eram abusadas, poque “o Barão gosta de se lambuzar”, como dizem os feitores. Não! A baronesa não dormia no mesmo quarto, mas tinhas muitas coisas secretas também que não vem ao caso agora... (bate a faca pra assustar) Vamos sair daqui! Não estou me sentindo bem! (tempo transtornada) Agora vamos ao quarto do barãozinho... (brincando com a faca) Aquele quarto no fim do corredor... Não se incomodem com as velas acesas diante da porta. É pra consolar o espírito dele. (tempo solene) Mas espírito que não presta não se consola! Você tem que matar todo dia essa praga. Não se preocupem, ele é meu, deixem comigo essa vingança. Eu sei que vocês não estão aqui para ouvir a minha história. O casarão inspira outras vidas, prosperidade,  festas e arte que foram emanados nesses salões. (música) Essa era a banda de escravos que o Senhor fazia tocar pra divertir um simples café da manhã... Éramos um batalhão pra sercir ao insaciável Senhor... Aposto que vocês querem saber se na Senzala é mal assombrada. Não? Eu te digo, na Senzala vocês não vão ouvir correntes se arrastando, porque a gente quebra as correntes todos os dias... Tudo bem, eu sei que o pacote não incluía ser testemunha de um assassinato, mas isso é o que consta nos autos. Os autos que os brancos, feitos à semelhança do Senhor Barão sentenciaram... mas é uma ótima oportunidade para vocês observarem como era feita a Justiça da época. Da época que não acaba nunca! Podem me seguir quem não se incomodar com o grito surdo que o barãozinho vai soltar quando eu cravar a faca no seu peito. E para curiosidade. Ele está dormindo de papo pro ar, todo folgado depois de abusar minha irmã que me escondeu para que não fosse eu pela centésima vez. Mas antes de vocês chegarem eu corri pra pegar esse cutelo de matar porco... esse corredor é a minha liberdade. Algumas dezenas de passos e uma canção na cabeça: Samba lelê tá doente, tá de cabeça quebrada, samba lelê precisava é de umas palmadas. Samba, samba, samba o lelê, samba, samba, samba o lalá... (Ela prepara o golpe e depois de um tempo abaixa o braço. Quase sem força.) Como eu queria ter desfechado esse golpe, mas seria só um valete fora do jogo. Ergui, minha irmã e a levei para o mais longe possível... o barãozinho, depois soube que foi enviado para a Europa ganhar modos... maldito! (tempo, se recompõe) Podemos continuar o passeio? Vocês vão amar o café feito na hora por um barista. Vamos à cozinha? Vamos? Não precisam contar tudo o que falei para a dona da agência. Se puderem me dar cinco estrelinhas na avaliação eu agradeço. Viva o turismo sustentável!  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

FRAGMENTO II – TITO, imigrante italiano, por volta dos 40 anos, dono de uma pequena venda de 1 porta na região de Quiririm. Ele usa um avental todo sujo como quem estivesse num intervalo enquanto assa um alimento. Está pitando seu cigarro encostado na batente do estabelecimento e observando a rua. Conversa com uma pessoa.

TITO – Já, já tem pãozinho fresco, dona! Pão italiano, melhor que essa porcaria de pão francês. Igualdade, liberdade e fraternidade é aqui na mercearia do Tito! Trabalhador alforriado pode colocar na caderneta! Capitão do mato, capataz, feitor e cagueta não paga nada e ainda leva bala! Ei senhora, temos café silvestre! Já ouviu falar? Está em extinção. Se interessou senhora? Vem provar antes que acabe. Esse desmatamento à torto e a direito que os Fazendeiros fizeram com morros do Vale não tá certo não! Tenho umas mudas vieram direto das selvas africanas, Serra Leoa, Madagascar... mas se quiser tenho da safra de 1900 também, a melhor safra de Taubaté. Não sabia? Os Fazendeiros encheram o cú de ganhar dinheiro, é! Ficavam chorando pra não abolir a escravidão e faturaram mais com os braços livres dos seus ex-escravos e dos imigrantes pobres. Eles chamavam de parceria, colaborador, esses papos de empreendedor de sua própria força de trabalho. Legal, né? Eu não me beneficiei no meio dessa italianada que chegou aqui na colônia agrícola do Quiririm, não. Eu sou da segunda geração, só me fudi nessa. Meu pai veio na primeira leva, o governo imperial mandou buscar 100 operários e 2 mestres para construção da estrada de ferro. Não tinha terra garantida de ganhar terra como essa leva agora tem. As políticas mudam. Estou ligado! Meu pai era um desses dois mestres de construção, mas depois que viu a sacanagem que se faziam com o povo dessa terra ele foi fazer a vida sozinho e veio aqui pra essas bandas que era toda de várzea, lugar silencioso, só se ouvia os grilos cri-cri-cri, quiririm... tinha uns colonos e gente alforriada que plantava arroz. Mas acabou o sossego com esse empreendimento da “Sociedade de Imigração de Taubaté”, um conchavo sujo de um fazendeiro que grilou essas terras depois conseguiu concessão pro governo comprar e revender pros imigrantes. Cascata da grossa. Eu e meus vizinhos, gente pobre que plantava pra sobreviver fomos expulsos por causa desses colonos. Meu pai morreu de desgosto, mas eu ainda consegui provar que era filho de italiano e fiquei espremido aqui nessa vendinha. Mas não estou feliz não! A felicidade não pode ser pra um só ou pra alguns que consegue se arranjar. A gente da minha terra passou muito aperto aqui, por conta de ser enganado. Falaram que eles iam plantar café, o “ouro negro”, mas tiveram que fazer tijolo com o barro daqui pra satisfazer a burguesia de Taubaté. Mas por medo eles se fecharam e não sinto que já não é minha gente, estou preocupado com meus vizinhos que se espalharam e estão morrendo de fome em beira de estrada, sendo preso por vadiagem e ainda capturado por capitão do mato... (pega um jornal) enquanto deu no jornal de hoje: “Os barões do café, foram titulares do Império e são titulares do República - contribuíram de forma relevante para o progresso de Taubaté para melhorar a qualidade de vida dos seus habitantes” (pica o jornal durante a narração) Eu não tenho lembrança da Itália. Mas tenho sonhado com as histórias que meu pai contava da sua Sicília... e do exército esfarrapado, de gente pobre, camponeses, desertores e idealistas que foram esquecidos pela unificação, abrigados numa montanha, numa guerra sem quartel contra o exército da recém-nascida Itália. Nunca soube se essa história me fazia dormir para sonhar com esperança ou eu sonhava acordado pra sonhar tranquilo na justiça que nunca existiu. (tempo) Desculpa a prosa do passado, mas tudo é sobre o passado, não adianta, a gente só faz o novo se souber olhar bem quem já fez e ir melhorando... é melhorar é lorota, as vezes é preciso piorar, agravar o que já fizeram senão a gente fica só melhorando pros ricos essa prisão que eles nos meteram. Todos nós, nessa prisão, branco pobre, negro, índigena... tá certo que as celas não são iguais! Tenho uma cela pra me acomodar e umas coisinhas pra vender, enquanto outros vivem em solitárias ou abarrotados em minúsculas celas. Mas eu me vejo numa imensa prisão que os esses grandes cercaram a gente. Mas eles também podem virar picadinhos. Não estou insinuando nada. Quem sou eu minha cara... mas se quiser vir conversar com a gente, essa noite tem reunião. Percebi que você se interessa nessa parada de justiça, igualdade... mas ela essas coisas não vai cair do céu e nem baixar por decreto. Eles tem tudo e não param de querer mais. Já reparou se tem algum rico que fala, de repente:  “-Ah, cansei de ser rico, já temos dinheiro pra três ou quatro gerações, agora chega!” Essa gente quer explodir de tanto dinheiro, e quando o câmbio flutua e a bolsa cai, eles se sentem as maiores vítimas da face da terra. (imitando) “Precisamos de proteção!”, “Salvem o café brasileiro!” “Mais créditos!” “Somos os maiores empregadores do país!”, e por fim anunciam: “Vem aí o Convênio mais esperado do ano”... adivinhe  aonde eles vão fazer essa joça de convênio? Em Taubaté! Vai vir todo mundo pra cá, os graúdos vão fechar o centro e a ralé vai assistir o desfile de carruagem. Eu e meus amigos vamos estar lá. Pra fazer o que lá? Não sei, vou festejar com eles, levar uns presentinhos pra esses distintos senhores. Estamos construindo uma comitiva de boas-vindas da sociedade civil organizada de Taubaté. Junte-se a nós, não é baderna e nem protesto. Mas vamos por os visitantes para dançar, assim como fazemos em nossas festas. Sim, vai ter música. O mestre de música João Romão de Pindamonhangaba vai se juntar com a gente, estamos formando uma sociedade musical. Pois é, João Romão, depois da abolição e da república, perdeu seu protetor e a banda dos pretos. Tava perdido na bebedeira em Taubaté. Juntou-se a nós. Perfeito! A senhora aprendeu com ele a tocar bombardino? Maravilha, hoje a noite tem ensaio também. É só chegar, vamos te explicar tudo como funciona. É aqui nos fundos da mercearia. A senhora bate três vezes, por precaução... tem mais mulheres, tem mais gente de todo o tipo, de toda a cor, a senhora vai gostar. Obrigado, passar bem!

 


  

FRAGMENTO 3 – JOANA e TITO estão numa ação de bandoleiros, estão à espreita de um comboio de carregamento na beira de uma estrada. Estão armados e atentos.

JOANA – Ei Tito, aquela história de café silvestre, é de verdade ou é só pra atrair freguesia?

TITO – Mais do que isso, é pra atrair companhia. Mas existe sim

JOANA – Mas você nem terra tem pra plantar café silvestre.

TITO – Foi o nosso companheiro Otelo que me contou. Ele é lá do outro lado da África. Sempre disse que nosso café não presta. Sonho com esse café silvestre... 

JOANA – E onde vamos enfiar essa quantidade que vamos confisca hoje?

TITO – Já pegou o espírito da coisa... “confisco” é bom esse nome, jogamos na mesma moeda que eles fazem com a gente... tenho comprador lá de Jacareí pra essa encomenda.

JOANA – Posso dizer uma coisa, que fiquei pensando do seu discurso pra preparar essa ação?

TITO – Pode, mas mantem o ouvido aberto para o assobio do outro grupo que está de campana acima da ponte...

JOANA – Perfeito! Sou capaz de ouvir uma folha caindo na água. É sobre seu conceito de sermos todos iguais, você sabe que não é assim...

TITO – Mas vai chegar o dia em que nossas diferenças vão desaparecer.

JOANA – Esse dia custa chegar, mas não tem como prometer nada. Eu sei que se der errado alguma coisa nessa ação e formos pegos, eu vou ser executada aqui mesmo. Você e alguns dos nossos podem até serem julgados e cumprir pena. Mas nem isso eu tenho direito.

TITO – Por isso que na ação eu estou à frente, pra você e o Otelo ficarem na retaguarda e terem uma chance de se embrenharem...

JOANA – Mas o caso não é de dar pinote com mais chance, é sua ideia de que somos iguais. Quando eu acho que somos essencialmente diferentes, se você tentar pensar por esse lado, podemos até conseguir mais irmão de cor. Porque a sua ideia de igualdade e justiça, ela é branca, ela usa venda nos olhos, tem uma espada e a roupa dela mostra que ela veio fazer justiça pros seus. Tem gene nossa que nem espada conhece, nem roupa que pra ser igual. E na minha história quem faz justiça pode até ter a espada, mas ela tá de olhos bem abertos...

TITO – Estou tentando entender, mas tenho que ter um horizonte pra gente melhorar enquanto caminha. Ficar parado nessa diferença está matando a gente de querer um ser melhor do que o outro.

JOANA – Pelo jeito só tem um diferente aqui querendo matar o outro. É o branco, é os seus iguais.

TITO – Mas eu não sou eles, há muito tempo, Eles tiraram tudo o que meu pai conquistou.

JOANA – Pois é isso, será que você não quer só retomar o lugar que você acha que merecia antes de ser despejado?

TITO – Não! É por todos que eu vi serem pisoteados. Pretos e brancos naquele pântano eram iguais. Meu pai e eu éramos tão pobres quanto o negro Jeremias e acordávamos antes do nascer do sol.

JOANA – Certo, mas nem você e seu pai passaram por uma escravidão igual ele, eu e meus parentes. Para os brancos a vida é um jogo, eles assistem seus peões numa rinha, estão apostando que a gente se mata antes de a gente ter a experiência de ser tratado como um igual. Porque isso não tá nem perto de acontecer. É meu cabelo, é minha cor, é meu nariz, é minhas crenças que o senhor de escravo e seus agregados querem impedir de andar livremente. O senhor de escravo vai transmitir essa sanha por muito tempo. E isso, Tito não faz da gente um igual. Na corrida que eles nos colocaram, você, homem branco, mesmo pobre, os homens mestiços, pardos e até homens negros largam na frente.

TITO – Ninguém vai me por pra correr contra os meus. Você quer que eu pare de falar que somos iguais, é isso?

JOANA – É isso, mas não é.

TITO – Assim fica difícil entender. Mas eu acho que entendi. (tempo) Você acha que ainda estão te procurando?

JOANA – Faz tempo que não encontro nenhum cartaz ou jornal com meu nome, mas tem capitão do mato sempre atento.

TITO – Por isso que a ação de hoje não pode dar errado. Com o dinheiro vamos te enviar pra outra região pra você recomeçar sua vida.

JOANA – Não quero! Vou enfrentar meus feitores e algozes aqui mesmo. É terra dos meus pais, eu enterrei os dois aqui.

TITO – Mas sua tentativa de matar o barãozinnho deu repercussão demais, você tá marcada pra sempre!

JOANA – Está vendo, uma mulher que desafia o poder está marcada pra sempre. Você e suas histórias de bandidos da Sicília tem reabilitação, perdão... alguns são reintegrados na sociedade e eu estou condenada.   

TITO – É só um jeito de falar, esses barões tem muito poder

JOANA – “Só um jeito de falar”... “você não vai conseguir”, “você é mulher, ”... é sempre assim, essa desconfiança. Eu botei fé que você queria uma companhia pra luta, mas tá se fazendo de paizinho protetor, “vamos mandar ela pra uma região segura”, me poupe Tito...se é assim eu tô fora!

TITO –(falando abafado) Joana! Por favor, volta aqui! Joana! Deixa disso...

JOANA – Você tá brincando de ser bandido cara, enfiado no meio desse mato achando que vai assaltar o rei? É só meia dúzia de saca de café. Você vai roubar um tratante pobre igual a gente. Deixa disso você! Silêncio! Está ouvindo? Eles estão se aproximando... se agacha aí.

TITO – Eu não to ouvindo nada...

Um som de marchinha de São Luiz do Paraitinga surge e atinge um pico de altura e depois passa.

JOANA – Que som é esse? Da onde vem isso? Quem é Barbosa? Quem é Barbosa, caralho?! Eu vou atirar! Eu vou atirar nesse Barbosa!  

TITO – Eu sei lá que é Barbosa. Não atira não! Pode ser uma armadilha. Deixa o som passar... aí, está diminuindo...

JOANA – Porra, que susto deu até vontade de dançar. Porque o maestro João Romão não ensina nossa banda de bandidos tocar um ritmo desse?

TITO – Ah, o João Romão é boa gente, mas é um pela saco de música sacra e polca de salão. Fez muita sinhá rebolar em Pindamonhangaba.

JOANA – Acho que a gente tá vendo coisa... ouvindo coisa... de tanto tempo embrenhado aqui. Vamos abortar, tá furado essa ação...  

TITO – Silêncio! Eu estou ouvindo um tropel, deve ser o comboio se aproximando. Agacha aí!

Som de homens marchando e cantando canção de TFM do Exército surge baixo e passa igual o anterior.  

JOANA – Que horror! De onde está vindo esse som?

TITO – Deve ser a escolta do comboio. Eu vou atirar nesses desgraçados!

JOANA – Não faça isso. Eles querem nosso ódio pra juntar com o deles. Já está passando... calma!

TITO – Malditos! Como eles podem cantar essas maldades sem pagar na terra por isso? (tempo) Acho que estou ficando com sono e esse comboio não vem.

JOANA – Vamos sair daqui, vamos descansar. Não é fácil ser bandoleiro em Taubaté.

TITO – Ah se fosse na Sicília. Estaríamos em todos os jornais!

JOANA – Aqui, nessa terra só barão tem vez. Esteje pronto pra ser ninguém!

TITO - Mas podemos ser ninguém como ninguém.

JOANA – Ninguém como eu, ninguém como você... isso dá samba, hein.

TITO – O que é samba?

JOANA – Ah, para! Você precisa dormir, cara...

Eles saem de cena assobiando a marchinha do Barbosa.

sábado, abril 23, 2022

Teve Bandoleiros de Taubaté na TV.
Tem bate-papo às quintas-feiras, dia 28 de abril, 05 e 12 de maio, no canal da LetraSelvagem. Confiram!


 

Assistam nosso primeiro bate-papo do projeto Bandoleiros de Taubaté que foi ao ar no dia 21/04/2022 pela Letras Selvagem TV. Link abaixo


Bate-papo: Monteiro Lobato e a Escravidão 

quarta-feira, abril 13, 2022

BANDOLEIROS DE TAUBATÉ.

O dramaturgo, Rogerio Guarapiran, autor do projeto Bandoleiros de Taubaté, premiado pelo Programa de Ação Cultural (PROAC) da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo, na área de criação e publicação literária, realiza um ciclo de 4 bate-papos sobre Teatro e Dramaturgia, História e Psicologia, Literatura e Música. Realizado pelo programa Artes Brasilis do apresentador e escritor Nicodemos Sena, transmitido ao vivo pelo canal do youtube da Letra Selvagem TV, receberá como convidados, escritoras, psicólogos, músico, ator atriz para debater e expressar pontos de vista sobre temas históricos e artísticos que envolvem a criação e a publicação de obras de dramaturgia nacional. Acontecerá às quintas-feiras, sempre a partir das 19h e iniciando no dia 21 de abril com o tema: Monteiro Lobato e a escravidão; dia 28 de abril com o tema sobre a publicação de dramaturgas; dia 5 de maio sobre o processo de criação de dramaturgia; e dia 12 de maio acontece o sarau com audição de música e leitura dramática da obra Bandoleiros de Taubaté. O objetivo desses bate-papos é compartilhar a pesquisa e divulgar os processos de criação literária para o teatro. 

Programa Arte Brasilis – link do canal:

https://www.youtube.com/channel/UCHdHiSmkeQQWgQFu877OBQA/featured

 

Sobre o Projeto Bandoleiros de Taubaté

O projeto envolve todo processo de criação: pesquisa, consultoria literária, ações de contrapartida e eventos de lançamento. “Bandoleiros de Taubaté” é o nome da peça de teatro inédita de Rogerio Guarapiran, escritor taubateano, que será publicada pela editora Letra Selvagem em 2022. Sinopse da peça. Livremente inspirada em fatos históricos do período do ciclo do café na cidade de Taubaté, um dos principais centros econômicos da época entre o fim do século XIX e início do XX, a dramaturgia retrata dois bandos rivais, de um lado formado por fazendeiros e milicianos, e do outro, por ex-escravizados e imigrantes pobres. A peça discute visões sobre a identidade nacional, o banditismo como forma de sobrevivência, poder e violência.

 Participantes:

  

Apresentador: Nicodemos Sena, romancista, jornalista, empresário e agitador cultural, formado em Direito pela USP. Seu romance “A espera do nunca mais – uma saga amazônica” conquistou o Prêmio Lima Barreto/Brasil 500 Anos, da União Brasileira de Escritores (UBE/Rio de Janeiro). Como agitador cultural, mantém uma livraria e espaço cultural Letra Selvagem em Taubaté e apresenta programas de entrevista no Youtube através do canal Letra Selvagem TV.         

 


Mediação: Rogerio Guarapiran. Dramaturgo e músico. Natural de Taubaté, tem mais 10 peças escritas e encenadas. Trabalha com o teatro profissional no estado de São Paulo e é idealizador do projeto “Bandoleiros de Taubaté”, texto inédito para publicação pela editora Letra Selvagem.

 

Pautas dos Programas:  

 

  1. 21 de abril, às 19h. Título: Monteiro Lobato e a escravidão. Bate-papo com Psicólogos sobre os contos de Monteiro Lobato: Negrinha e Bugio Moqueado para discutir a visão da escravidão pelo autor e dados da história da cidade de Taubaté no início do século XX.


Daniel Cardozo Severo. Psicólogo e Psicanalista. Formado em Filosofia pela Unifesp, realizou seu mestrado e doutorado em Filosofia pela mesma instituição. Autor de três livros, sendo o último “Os Sujeitos do Homem Psicanalítico: rumo à arqueologia dos sentidos” (Ed. CRV). Atualmente, leciona Psicanálise, na Unitau e na pós-graduação da Unisal, e Filosofia, na Faculdade Dehoniana.

Carlos Eduardo Ramos: Professor do Curso de Psicologia da Universidade Federal de Roraima. Possui mestrado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (2012) e atualmente cursa o Doutorado no mesmo programa. Possui especialização em Educação: História, Cultura e Sociedade (2007) e graduação em Psicologia - Bacharelado, Licenciatura e Formação de Psicólogo (2005) pela Universidade de Taubaté.

 


Leandro Roberto Neves. Psicólogo, fez mestrado em Gestão e Desenvolvimento Regional pela Unitau (2004) e doutorado em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (2013). Atualmente é docente/pesquisador da Universidade Federal Fluminense. Tem experiência na área de Psicologia Social, Psicologia Ambiental, trabalhando os temas: cidades, políticas públicas, território, educação, projeto interdisciplinar e cultura.

 

 

  1. 28 de abril, às 19h. Título: Processo de criação em dramaturgia. Entrevista com o autor do projeto Bandoleiros de Taubaté, Rogerio Guarapiran sobre o processo de criação dramatúrgico, referências, vida e obra.

 


  1. 05 de maio, às 19h. Título: Dramaturgas publicadas. Bate-papo sobre dramaturgia, com foco na importância da publicação e experiências autorais. Debatedoras:

 


Silvia Gomez. Dramaturga, professora e jornalista. Formada em Comunicação Social pela UFMG, integrou o círculo de Dramaturgia do CPT-Sesc, dirigido por Antunes Filho, onde teve encenada sua peça “O Céu Cinco Minutos da Tempestade” e publicação pela Editora Sesc. Foi prêmio APCA de melhor dramaturgia e prêmio Aplauso Brasil em 2015 pela peça “Mantenha Fora do Alcance do Bebê”. Fez residência de dramaturgia e intercâmbio cultural Brasil-Escócia. Seus textos foram traduzidos para várias línguas e atualmente coordena o Núcleo de Dramaturgia SESI - Britsh Council e publicou a peça “A Árvore” pela editora Cobogó (2021).

 

Michelle Ferreira. Atriz, dramaturga, roteirista e diretora. Formada pela Escola de Arte Dramática, foi integrante do Núcleo de Dramaturgia CPT, com coordenação de Antunes Filho. Foi duas vezes finalista do Prêmio Luso-Brasileiro de Dramaturgia (2009 e 2011). Teve seus textos encenados pelos diretores Cacá Carvalho, Hugo Possolo, Mario Bortolotto, Eric Lenate, José Roberto Jardim  e as diretoras Isabel Teixeira Maria Maya. Escreveu e dirigiu “Os adultos estão na sala”, indicado ao Prêmio Shell de melhor autora em 2013. Seu trabalho estreia internacionalmente em 2016, na Escócia com “Tem alguém que nos odeia” e publicou “4 da espécie, a história do corpo coisa nenhuma” pela editora Patuá (2018).

 

Karen Sacconi. Dramaturga, escritora, tradutora e pesquisadora. Mestra em Letras pela Universidade de São Paulo (2007) e doutora em Letras Clássicas pela mesma (2018) com tese indicada ao Prêmio Capes. Foi professora de literatura grega e retórica da UNESP Araraquara (2018) e professora de grego antigo no Centro de Línguas da FFLCH/USP (2010-2012). Publicou em 2021 o livro “O Monstro” pela editora Patuá.

 

  1. 12 de maio, às 19h. Sarau Bandoleiros. Leitura dramática de fragmentos do texto inédito e audição de composição inspirada no projeto. Participantes:


Fernanda Ventura. Atriz, apresentadora e cantora. Formada em artes cênicas na Fêgo Camargo, trabalhou em diversos espetáculos e projetos artísticos, empresariais e ganhou 5 prêmios em festivais como melhor atriz. Atuou em musicais, “Os Boêmios de Adoniran”, pela cia Interiorando (Prêmio Bibi Ferreira),  “Dona Ivone Lara, um Sorriso Negro”, pela Fato Produções Artística. Atuou no filme “Tapete Vermelho”. Tem canal do Youtube: “Poemas e Canções”, o qual, produz e interpreta.

 

Renan Rovida. Ator, diretor e roteirista em cinema e teatro. Integrante do Coletivo Tela Suja Filmes e o grupo Novo Teatro em Ruínas. Dirigiu e atuou recentemente no seu novo, inédito, “Idade da Pedra ou Rocky 3º mundo” (2022). Realizou ainda pelo Tela Suja os longa-metragens “SEM RAIZ”, “PÃO E GENTE” e os curtas metragens “Entre nós, dinheiro” e “Coice no Peito”. Conquistou prêmios nacionais e internacionais. Leciona oficinas de Atuação Realista e Épica. No teatro, trabalhou na Companhia do Latão, na criação das peças "Ópera dos Vivos" e "O patrão Cordial". Atuou na peça "Fome.doc” da Kiwi companhia de Teatro".

 

Paulo Henrique Raposo. Músico, professor e compositor. Coordenador do Curso de Licenciatura em Música na UNIFACCAMP Centro Universitário Campo Limpo Paulista.

 

  

Próximas ações e cronograma

 

  1. Junho/Julho. Consultoria Literária de Nicodemos Sena. Entrega da 1ª versão final (provisória) do texto “Bandoleiros de Taubaté” e agendamento de uma reunião.
  2. Agosto. Entrega da versão final do texto para publicação.
  3. Dezembro. Lançamento na Livraria Selvagem em Taubaté. Noite de autógrafos e venda do livro. Apresentação musical do Clube do Choro Waldir Azevedo.
  4. Novembro/Dezembro. Doação de livros, 50 cópias, sendo 25 para a Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado de São Paulo e distribuição para bibliotecas e grupos de teatro  das cidades do Vale do  Paraíba.          

 


sexta-feira, abril 01, 2022

CICLO de Bate-papos: Bandoleiros de Taubaté (PROAC-2022)

Olá amigos e amigas. O meu projeto de dramaturgia inédita, Bandoleiros de Taubaté, começa uma nova etapa após as pesquisas históricas. O ciclo de bate-papos com artistas e educadores sobre vários aspectos da dramaturgia, psicologia, música e amostra e textos inéditos do projeto. As lives acontecerão no programa "Artes Brasilis" com apresentação de Nicodemos Sena, canal Letra Selvagem TV no Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCHdHiSmkeQQWgQFu877OBQA
Acontecerá às quintas-feiras, 21, 28 de abril, 05 e 12 de maio. Sempre às 19h.
Acompanhem, prestigiem.





 

quarta-feira, janeiro 20, 2016

quarta-feira, abril 15, 2015

Regional Corrupião - Cis Guanabara

Regional Corruião vai estar em Serra Negra no dia 18/04/2015

quinta-feira, abril 02, 2015

Roda de Choro em Taubaté - Domingo 05/04

Casa Oficina - Rua Getúlio Vargas, 141

a partir das 12hs.

Compareçam



Evento: Clube de Choro Waldir Azevedo 10 Anos

Local:  TEATRO METRÓPOLE DE TAUBATÉ

DIA 30 DE ABRIL – ÀS 20HS

ENTRADA FRANCA (retirada 1 hora antes no teatro)


RELEASE
O dia 30 de abril promete uma noite de Chorinho e Seresta no Teatro Metrópole para comemorar os 10 anos de atividade do Clube do Choro Waldir Azevedo e celebrar mês Oficial do Choro.  Será um acontecimento musical marcante no coração do público e significante para história da cidade. O show promove um encontro no palco de amigos músicos com o público, amante da música instrumental brasileira, que terá entrada franca. O espetáculo se divide em 3 blocos, primeiro com a apresentação do Clube do Choro mostrando a variedade instrumental, rítmica e melódica do gênero, juntamente com uma homenagem à história dos músicos de Choro, pioneiros da cidade de Taubaté, contando com convidados ilustres como Nico Ferreira no violão, João Silva no bandolim e outros . Nos dois blocos seguintes uma nova geração de chorões sobe ao palco, os regionais Chorando na Feira e Conversa Afiada apresentando uma mescla de repertório tradicional e contemporâneo para celebrar o encontro.
CONVIDADOS – Chorões de Taubaté:
NICO FERREIRA – (violão) importante trabalho solo, dividiu o palco com grandes nomes da música brasileira, filho do violonista Ferreira, pioneiro na rádio.
JOÃO SILVA – bandolim e tenor, compositor reconhecido no cenário paulista e nacional, comandou por muito tempo o Conjunto Vibrações e gravou vários discos.
CHIQUINHO DO PANDEIRO – percussionista de família musical e participou dos mais importantes regionais da cidade
PEDRO PAGOTI – acordeon, integrou os primeiros regionais da rádio Difusora acompanhando calouros.
JOÃO PEIXINHO – flauta, de grande conhecimento prático no instrumento integrou quase todos regionais de choro da cidade e guardião de vasto repertório


 CONVIDADOS - Regionais
O Grupo CHORANDO NA FEIRA formado dentro da reunião semanal de sextas-feiras que acontece perto mercado municipal de Taubaté, mantém o princípio despojado de roda reunindo músicos jovens e experientes. Em suas apresentações, o grupo passeia pelas obras eternas dos mestres chorões com o objetivo de divulgar o estilo instrumental e vocal, trazendo para suas apresentações clássicos do gênero e suas letras que são pouco conhecidas.



O REGIONAL CONVERSAAFIADA é um grupo jovem e irreverente, formado pelos músicos Everton Campos (flauta transversal), José Marcos (Bandolim) Bruno Percussa (pandeiro), Luiz Paulo Muricy (cavaquinho) Léo Castro (violão 7 cordas) e traz consigo a responsabilidade e vontade de fazer música brasileira de qualidade. O grupo apresenta trabalhos autorais e homenageia os grandes gênios do Choro. 






Workshop Aspecto de Dramática da Língua Portuguesa

FERNANDO VIEIRA CAMÕES LUIZ ANTONIO PESSOA

http://acasaoficina.wix.com/site#!atividades/cj06

Objetivo: análise linguística e gramatical de trechos dramáticos da prosa e poesia dos autores em busca de uma Dramática da Língua Portuguesa.


Sinopse: Unir três fundadores da nossa língua literária moderna para extrair consequências linguísticas de construções gramaticais para expressar os mais altos sentimentos e inexprimíveis dramaticidades.

Metodologia: Análise linguística, semiótica e poética. Leituras e slides de trechos das obras dos três autores de alta dramaticidade para observar as construções tipológicas e as técnicas de recriar a emoção.

Duração: 3hs  

Local: Casa Oficina. Rua Getulio Vargas 141. Taubaté-SP
Dia 25.04.2015
HOrário: 16hs-19hs
Quanto: R$30.  com material e mesa de café incluso


terça-feira, fevereiro 26, 2013

Roda de Choro - Campinas 2013

Toda terça-feira tem: Roda de Choro
na


Pizzaria Borda de Ouro

Rua Angelo Signori Grigol

Real Park - Barão Geraldo

(primeira a esquerda depois da moradia da Unicamp, 3 quarteirões a diante)

a partir das 20h30












Trio de Choro


Beto -Pandeiro; Guilherne- violão; Rogerio- bandolim.
Caricatura: Bira (Campinas2013)

terça-feira, agosto 25, 2009

RETOMANDO


oLA, depois de longo tempo sem postar nada, talvez porue tivesse um pouco ocupado ou desocupado com outras tarefas, mas é bom que a qualidade das coisas podem ser melhor observadas e discutidas.

Uma das reflexões em que me meti foram a Crítica Teatral, a partir do curso 2008\2009 na ELT com o Kil Abreu.

Um destes resultados quero compartilhar. É um ensaio sobre a peça e a encenação do "O Quarto", de Harold Pinter, com encenação Club Noir.


Ensaio : O universal na dramaturgia de Harold Pinter e o Particular na encenação d’O Quarto pela Cia Club Noir.

Uma situação particular para falar do universal, essa parece uma das propostas explícitas da dramaturgia de Harold Pinter, infusas principalmente no texto que é alvo da presente reflexão. As conjecturas entre texto e cena são feitas aqui por uma experiência de tempos diferentes que são a leitura do texto, apreensão maleável e reversível, e a experiência de espectador da representação, leitura de sucessão irreversível. Do caráter da interpretação do texto é que se pretende discutir, mas antes que se desenhe juízos de valor arbitrários e subjetivos sobre o texto e a encenação, tentarei dar valor mais ao confronto de qualidades positivas ou negativas (mas, sempre como qualidades) que se mostraram tangíveis no palco e texto.

O primeiro atrito criativo, latente, entre texto/cena é o tratamento das rubricas ou didascálias. Elas são o canal direto e performativo do dramaturgo para a encenação, ou ao leitor. A qualidade das rubricas que aparecem no texto são, majoritariamente, de indicações sobre os gestos, os movimentos, entradas e saídas. Detalham a movimentação espacial e ações objetivas sobre os objetos e pessoas. Historicamente esta qualidade é usual no “teatro naturalista”, conhecido em final do séc XIX, que “visa oferecer uma representação exata dos meios sociais dos personagens” (Dominique Maingueneau). A crítica a esse recurso está na vinculação passiva e conivente com a ideologia burguesa, que procura instituir os comportamentos e ações de indivíduos da classe dominante como representação fatalista, não-historicamente construída, e portanto, contraditoriamente reversível.

A literalidade do texto parece indicar um falso naturalismo, em contraposição à confusão estabelecida das lógicas argumentativas e de locuções (modo próprio de se expressar) dos personagens. Estas lógicas deveriam ser claras e mais ou menos facilmente perseguíveis pelo “contemplador do teatro naturalista”. A encenação desconfiou das indicações objetivas e embarcou pela opção de um jogo de cena enigmático e sensorial. A movimentação das personagens são deslocamentos nitidamente traçados no espaço, a relação acontece através de linhas e geometrias imaginárias. Essa atitude questiona a validade das rubricas e age determinante na chave da interpretação. Os intérpretes, principalmente a atriz Juliana Galdino, através da protagonista Rose, interiorizam as ações para tentar livrar o público da aceitação natural de seus gestos e ações. Exteriorizam uma não-representação. Espectros amortizados, estáticos, mínimos gestos. Articulam um exasperado jogo de enunciações que apelam ao nosso auditivo, tentam conduzir o público ao universo misterioso, onde deve-se buscar a recriação do que possa estar acontecendo naquela realidade específica proposta. Isso mostra o caráter de sugestão da representação, sua responsabilidade e característica de lançar uma mediação onde “tudo-não-está-dado” e sua jogar para o espectador a qualidade precípua de participatividade com a obra.

Interpretação do texto para a direção da peça e os atores, nesse tratamento, é deixar espaço para a apreensão do sentido parcial, incompleto e aberto. Tentativa de devolver aos expectadores um poder atrofiado da imaginação, da cumplicidade distanciada e desinteressada. Imagens que temos que recuperar, criar e preencher. Quão difícil parece ser essa nossa parte da responsabilidade no fenômeno artístico, se nos propusermos a cada solicitação da nossa imaginação tentar desviar das imagens completas e totalizantes que os monstros midiáticos bombardeiam e tornar com algo simples e infenso como resposta a nossa condição marchetada na sociedade.

Outro atrito criativo se estabelece na qualidade de tratamento do elemento da escuridão. O escuro é o que nos engole e é o que nos devolve às potências do imaginário. Depois do próprio quarto que dá nome ao universo da peça, o escuro parece ser o elemento central, o quarto contém seu buraco negro, é um sistema, complexo e irracional agindo. Imerso nele só podemos ser devotos da incerteza, tatear caminhos e objetos. Rose, a protagonista, em vez de irradiar pensamentos e ações, parece tragar, num imenso repuxo uma trama confusa de narrações, memórias e diálogos entrecortados. A entropia das preocupações cotidianas.

Quando a visão se compromete na vaga escuridão, o sentido privilegiado é o auditivo, vemos/enxergamos com os ouvidos. A inconsciência e o esquecimento das coisas não fazem desaparecer os objetos e circunstâncias que não compreendemos e mal absorvemos. Elas existem, habitam e atuam em algum lugar de nós, no escuro, depositadas, relegadas e quase inalcançáveis voluntariamente, prontas a emergirem do mais fundo, do mais distante, onde a luz só pode roçar, já fraca e débil.

Rose, como elemento central desse universo, se move e fala no espaço de modo atordoado, entre as preocupações com o marido, Bert, na iminência de sair em plena geada, a pilotar sua caminhonete e a tensão crescente que se constrói sobre as especulações de quem habita o porão do prédio. A sugestão virtual da materialidade do prédio revela que este é composto por andares inumeráveis, habitações de inquilinos, zelado pelo senhorio/proprietário, Sr. Kidd, uma espécie de agenciador e mantenedor da inconsciência do lugar. A relação de moradia entre morar no subsolo (“lá em baixo”) e os andares acima (“lá em cima”) remete a uma situação de aparente superioridade em comodidade, conforto e bem-estar. Nesse prédio, a altura, que distancia as pessoas, pode ser duplamente entendida. No sentido das diferenças de classe social e também em sentido das relações psicológicas indesejadas, evitadas, incontroladas e de curiosidade que habitam, trafegam e querem se comunicar: - “Quem é que vive lá embaixo?”, é a indagação que de início aparece e vai aquecer o ambiente com as especulações e vaga lembrança de Rose ter habitado o porão do prédio; lugar de úmida e sombria memória, capaz de incomodar a imaginação: pensar que alguém agora pode suportar habitar tal posição; é isuportável. O diagrama do prédio tem a parte inferior e superior um tanto desconhecidas e inacessíveis, configura-se como um mistério que reflete a derrelição da personagem e os limites da consciência humana.

“Este é um bom quarto. Num sítio assim temos hipóteses”, afirma Rose a sensação e a imanência do espaço, na sua segurança de pensar o quarto como invólucro protetor das incertezas exteriores: o frio e a umidade, por exemplo. Um quarto, uma mulher, o mundo alheio afora, seres que propõem a desestabilidade, desafiam a lógica e a disposição de se pensarem a si mesmo e suas relações . A superproteção do mundo interno; as necessidades de reafirmações sobre estarem num lugar sossegado, quente e tranqüilo; o zelo maternal e a confiança da condução sobre seu marido; as negações do chamado misterioso do pai; a violência, a agressividade e descontrole sobre tratar o mensageiro. Que poder é esse de nos tornarmos fantasmas da nossa própria existência, observar à espreita as relações das pessoas e coisas quando sua própria vida desmorona e te cobra.

Estamos na imanência do espaço associativo onde as intenções são da mais potente ambigüidade colateral, referem-se ao estrito das relações ficcionais e ao extenso universo das realidades subjetivas e universais do leitor e expectador.

A confiança de Rose no marido, como capacitado condutor de sua caminhonete, em meio a uma geada, parece indicar um caminho subjetivo da entrega do seu destino às conduções de seu companheiro. Ou um indício lato para a reflexão sobre a qualidade e quantidade da delegação que operamos para sermos conduzidos pelo outro em nossos destinos. E na reverberação dessa imagem: condutor/conduzido, somos seres guiados e guias, simultaneamente, de destinos alheios, numa estrada escorregadia e perigosa, à mercê de colisões e desastres.

O homem que habita o porão quer emergir e atormenta o senhorio que agencia o encontro conflituoso com Rose. Sua prefiguração como sendo negro e cego traz agravantes de preconceito histórico, internalizado na personagem, de raça e deficiência. As ofensivas são um ódio precedente, irracional e defensivo para evitar o confronto da mensagem que Riley é portador. Sua função de mensageiro e cego é mitologicamente comparado a Hermes e Tirésias, personagens mediadores de uma comunicação sem precedentes, detonadora, trágica sobre o destino do herói; ponto sem retorno; são também oniscientes da situação que os envolve e os reclama. Ao recado do Pai de Rose para que volte para a casa, sua resposta é forte e ao mesmo tempo vacilante: - “é tarde”, nesse ponto concentra o derradeiro ato trágico e remete ao chamado de Hamlet pelo fantasma de seu belicoso pai. Convite ao desvario, convocação desestabilizadora do espírito, contato com algo maior que sua existência, o sobrenatural, a entrada ao mundo do caos, a irrupção do impossível, a angústia da liberdade, a invasão da matilha de lobos.

A estrutura dramática do texto é de transcurso linear, começo meio e fim, composto de um plano em que a lógica das movimentações corresponde a uma mimética naturalista, mas uma estranheza ou ruído gerado pela lógica interna dos diálogos e intenções das personagens abalam o mundo aparentemente estático e controlado que a tessitura do texto propõe. É de extrema sutileza as inter-relações pessoais que elidem uma condição simbólica e significativa para além do câmbio individual que é acintosamente obscura incompleta para gerar identificação emocional e psicológica. O texto move-se por sugestões e brechas para promover uma reflexão de condições mais gerais da nossa humanidade (exemplo sobre o texto do casal). Há uma tendência dispersiva sobre a condução da elucidação da linha de força dramática, que é saber quem é a figura do porão e porque tem o desígnio de trazer o recado peremptório do drama. O universo ficcional está se refletindo sobre si e não apenas se concentrando e preparando o cheque do destino individual. A propensão da instiga de saber das origens das leis de forças que mantém aqueles seres inconscientes e vacilantes sobre seu passado e futuro, provoca nossa necessidade de interpretar as mesmas leis de forças que por analogia atravessa nossa realidade individual e social. Tarefa inconteste de exercer cada dia mais consciente as rédeas de nosso destino.

14/07/09

segunda-feira, agosto 10, 2009

CHÁ DE COZINHA




Lívia e Rogério

convidam para o

chá de cozinha

dia 15 de agosto de 2009

às 19 horas

na rua amaral gurgel, 158 ap 41

t. 8505.4409

12. 9182.1620


(confira o mapa: http://maps.google.com.br/maps?utm_campaign=pt_BR&utm_source=pt_BR-ha-latam-br-bk-gm&utm_medium=ha&utm_term=google%20maps)


Confira a lista abaixo

(Obs.: se quiser assinalar o item escolhido deixe um comentário abaixo e confira para saber se alguém já escolheu)

***

ABRIDOR DE LATA

AVENTAL

DESCASCADOR DE LEGUMES

ESPREMEDOR DE BATATAS

ESPREMEDOR DE LARANJA

FORMAS DE PIZZA E BOLO (REDONDA E RETANGULAR)

FRUTEIRA

LEITEIRA

LIXEIRA

MARINEX

PANO DE PRATO

POTES PARA CONDIMENTOS

POTES PARA SOBREMESA

PENEIRA

RALADOR

SACARROLHA

SALADEIRA

TÁBUA DE CARNE E DE LEGUMES

TALHER

TAPEWARE

TOALHA DE MESA

TOSTADEIRA

VASSOURA